Sobre a mãe do Pedro

Eu acredito que antes de mais nada é preciso dizer de que lugar – e de que história  – vem a mãe do Pedro.  

 Eu sou pedagoga e brinco que, de certa forma, isso me traz vantagens em relação à maternidade, afinal, eu passei boa parte da minha vida estudando teorias sobre a criança e seu desenvolvimento.

T-E-O-R-I-A-S! Registrou? Então, ajuda mas não resolve. Voltando: sou pedagoga, venho de uma família de pai-mãe e filhos, família essa que sempre foi um lugar de muito afeto, mas também de tolerância e de aprendizado. Sabe aquilo de “quando eu tiver meus filhos vou fazer tudo diferente”. Então, não! Eu repito com o Pedro algumas coisas que meus pais fizeram na minha criação; e não repito outras; e aperfeiçoei algumas. E assim vou. 

Faculdade e família à parte, eu costumo dizer que ser mãe foi um divisor na minha vida. Sempre fui uma pessoa de posições fortes (quase inflexíveis), de posicionamento público, objetivos claros, disciplinada, exigente, dedicada, intensa. Com a maternidade eu aprendi que morava outra de mim aqui dentro. Descobri que sou um polvo (srrrsrsrsr) e que sou mais amorosa do que imaginava, mais cuidadosa e – pasmem – sou muito flexível. Já fiz pelo Pedro coisas que em outras fases da minha vida eu taxaria como impossíveis de me ver fazendo. E assim eu estou indo, descobrindo todo dia sobre ser mãe e principalmente sobre ser a mãe do Pedro. Venho descobrindo todo dia, nessa construção, como conciliar ser a mãe do Pedro e ser a Aliana mulher, a Aliana filha, irmã, amiga, namorada, a Aliana que trabalha, a que cuida da casa, a que cuida de si, a que cuida dos outros, a que gosta de cozinhar, a que é metida a fazer tudo sozinha, aff. Lista sem fim.   

E hoje, depois de quase quatro anos de construção? 

Pois é, eu diria que o principal é a maternidade me ensinou a olhar pra mim. A maternidade me ensinou a cuidar da pessoa que eu sou, a conhecer a pessoa que eu sou, pra só assim conseguir ser a mãe que eu quero ser. Me ensinou que não ser tão exigente é um exercício, exercício que eu preciso e que me faz muito bem.  E, acima de tudo isso, ser mãe me mostrou que a maternidade é um processo, único e individual, que eu gosto de chamar de “a bolha”. Vou escrever sobre isso qualquer dia desses e tenho certeza que vocês vão entender que não existe comparação melhor!

Boa leitura! Boa discussão pra nós!

Dos tombos na rua, passando pelo corredor do hospital e pela pracinha do condomínio: resiliência também se aprende?

Foto retirada da obra “O Livro dos ressignificados” do poeta João Doerderlein, Editora Paralela, São Paulo, 2017.

O tema da próxima publicação já estava escolhido e o texto quase pronto, mas hoje, depois de andar duas horas pelo centro da cidade em que eu moro, fiquei muito incomodada com uma cena que vi três vezes. Três vezes em duas horas, praticamente a mesma cena: uma mãe, passos rápidos, uma criança pequena (máximo três anos); a criança tropeça e quase cai e a mãe, irritada, puxa a criança por um braço e segue a arrastando. Com pressa, muita pressa. 

Uma das coisas que eu sei que me incomoda nessa cena, fora a questão da mãe ter que cumprir os seus compromissos com a criança junto, mas isso fica para outra escrita, é a forma como nós adultos lidamos com os sentimentos das crianças. Quando uma criança cai ela sente vergonha, medo talvez e, provavelmente, dor. A nossa reação de adultos, com pressa, normalmente é agir para que aquele sentimento cesse logo. É um tal de “deu, deu, passou”; “não foi nada, só levantar”.  As mães que vi hoje, pela situação, ainda acrescentaram a irritação, levantando a criança do chão com raiva. Não temos tempo e paciência para lidar com o tombo de uma criança que ainda está em desenvolvimento das suas condições motoras! Ao invés de acolher e dizer que está tudo bem cair, que acontece, que não precisa ficar com vergonha ou com medo, nós apressamos o momento e muitas vezes a criança não aprende sobre o que sentiu. 

Em outro momento presenciei uma mãe com um bebê de colo e uma menina de mais ou menos cinco anos esperando para fazer um exame, acompanhadas de um senhor que provavelmente era o vovô. Pelo que entendi da cena a mãe prometeu à menina que ela poderia entrar junto na sala de exames. No entanto, quando a enfermeira chamou, impediu o acesso da menina e a mãe ficou sem tempo para conversar com a filha. A menina sentou ao lado do senhor e começou num choro baixinho, bem envergonhado. O avô, por sua vez, começou a argumentar que ela não devia chorar. “Olha só o nenê, está aqui bem quietinho e tu grande chorando”. Nesse momento eu desejei muito que a menina respondesse que o “nenê” não tinha criado expectativa de ir fazer uma coisa bem legal com a mãe e não deu certo; que o “nenê” não estava se esforçando para engolir um choro que estava engasgando; que o “nenê” ainda não entende nada. Mas não, com a tentativa do avô, a pequena só soltou o choro de vez e, quanto mais ele falava, mais ela ficava nervosa. Assistir aquilo foi torturante e piorou quando a mãe saiu, pegou o bebê do colo do vô, falou com ele no estilo “bebêzes”e ignorou a choro da menina. 

Administrar sentimentos não é simples para nós, os “grandes”, que, em tese, sabemos o que sentimos. Para as crianças é muito mais complexo. Elas sentem, mas não sabem diferenciar ou nomear o que estão sentindo. Precisam de ajuda para identificar e aprender como viver cada uma das emoções de forma plena, o que é de extrema importância para a sua saúde mental. Coisas simples, do dia-a-dia, como um tombo, a rejeição de uma criança maior que não quer brincar, uma expectativa frustrada, a ausência de alguém, a espera de uma encomenda, são todas possibilidades que nós temos de conversar com as nossas crianças sobre sentimentos como tristeza, medo, vergonha, rejeição, saudade, raiva, ansiedade e por aí vai que a lista é longa. Precisamos,  no entanto, reconhecer a importância do nosso papel de adultos e ter muita, muita atenção e disposição para acolher, ajudar a dizer, ouvir e trabalhar bem com o que ouvimos. Estamos na era da depressão, da ansiedade, das crises de pânico e podemos ajudar nossos filhos a não dar continuidade a ela.

Parece impossível pensar a vida assim, meio utópico até, porque viveríamos parando para dar conta das crianças e de seus sentimentos. Aliás, só um pouquinho, o que deveria parecer estranho não seria nós não pensarmos em parar por eles? Eu fico pensando em como teria feito, do meu lugar e com a compreensão que eu tenho,  se eu fosse a mãe das crianças que caíram na rua ou a mãe da sala de espera do exame. Às vezes o que é preciso no momento é a acolhida, a conversa pode ficar para depois, se não der tempo, desde que estejamos atentos a ponto de perceber quando a criança precisa de um abraço e de um “vai ficar tudo bem, depois falamos sobre isso, pode ser?”. 

Dia desses Pedro me pediu para ir para o pátio do nosso condomínio brincar com os amigos. Esse ano ele está liberado para ir sem mim, já que cresceu,  me mostrou que sabe os perigos da rua e fez alguns combinados bem claros sobre como ele deve se comportar quando está sozinho naquele espaço. Minutos depois ele voltou, bateu a porta de casa e foi para o quarto, visivelmente chateado. Eu dei um tempo e fui atrás, bati, pedi licença e perguntei se ele podia me contar porque tinha ficado só aquele pouquinho de tempo no pátio. Ele me respondeu, prontamente, que as crianças não queriam brincar com ele. Disse que os amigos estavam fazendo um jogo e que ninguém quis conversar com ele e nem deixaram ele jogar. Meu primeiro impulso foi pensar na defesa da cria, “mas que crianças idiotas!” eu pensei. E que bom que só pensei! Na verdade estava ali, dançando bem na minha frente, uma bela chance de conversar com o Pedro sobre o fato de que nem sempre as pessoas vão estar disponíveis ou vão querer estar com ele e que isso faz parte da vida. Precisávamos nomear a tristeza e entender a rejeição, para, então, reagir. E vejam bem pessoas, cuidado com a compreensão desse reagir! O que estou me referindo, e o que busco com o Pedro, é a reação que se refere à nossa recuperação e a retomada do nosso bem estar frente a um sentimento negativo e não  a reação que gera vingança, certo? Estou falando de aprender a ser resiliente.

Conversamos bastante sobre o que estava acontecendo e sobre as crianças e todas as pessoas, inclusive o próprio Pedro, terem o direito de não querer brincar ou até de não querer estar com alguém, dependendo da situação. Alertei ao Pedro que caso isso acontecesse ele precisava informar a pessoa ou a outra criança de uma forma adequada, que foi, na minha interpretação, o que contribuiu para que ele se sentisse pior, pois as crianças ignoraram no primeiro momento e depois foram grosseiras. Em seguida consegui convencê-lo a voltar para a rua e brincar uma brincadeira que fosse dele. “Pensa o que tu pode fazer sozinho e te divertir?”, provoquei. Ele disse que podia andar de bicicleta, assim estaria brincando sozinho e sem precisar usar o espaço que estava sendo ocupado pela brincadeira das outras crianças, que era a casinha da pracinha. Dito isso, o piá se foi e voltou pra casa quase uma hora depois, feliz da vida porque dois amigos até largaram o jogo para andar de bicicleta com ele. 

Eu tenho consciência que não foi essa intervenção, isolada, que vai garantir que o Pedro saiba o que fazer quando sentir rejeição ou sentimentos parecidos em outros momentos. Esse é um trabalho de todo dia, tanto para ele quanto para mim,  principalmente sendo eu a adulta de uma geração em que não éramos ensinados a entender o que sentíamos. Uma geração que hoje está muito doente. Aqui em casa já iniciamos o processo de melhorar isso tudo pois, além de falarmos sobre rejeição, Pedro e eu também conversamos um bocado sobre saudade, ciúmes e ansiedade, todos sentimentos que ele joga no grande saco da tristeza ou da revolta mas que, aos poucos, eu o estou ajudando a separar para entender.

Da fartura de tombos de criança na rua, passando pela menina do exame e chegando no episódio da treta do Pedro com os amigos do condomínio o que eu vim defender hoje é que precisamos ajudar os nossos pequenos a entenderem o que sentem. Vejo com muita preocupação um movimento que parece proibir a expressão dos sentimentos que não são considerados positivos, tipo “olha o nenê aqui bem quietinho”, que coisa feia chorar. Não! Não existe a menor possibilidade de uma pessoa viver o tempo todo sentindo alegria e satisfação, a vida não é assim. Cada um dos nossos sentimentos tem uma função na nossa vida e na construção das nossas relações com os outros seres e identificá-los faz parte do processo de vivê-los e aprender sobre como superá-los. Cair sete vezes para levantar oito e levantar seguros de que aprendemos o que o tombo veio para ensinar.

Resiliência, ela também pode ser ensinada.

A separação e a construção da segurança

Hoje minhas lembranças do Facebook me trouxeram esse texto, de 2016. Compartilhei quando Pedro iniciou na escola, com cinco meses, para que eu pudesse voltar ao trabalho. Lembro que li o texto e chorei. Por incrível que pareça, e só quem já pariu vai entender isso, apesar de bastante segura, a sensação que eu tinha quando longe do meu bebê era que me faltava uma parte física. Como se fosse sei lá, braço, perna. Não sei explicar.
E o que me faz compartilhar isso no dia das mães?

Publicado em Coisas de Pedro no dia 12/05/2019


É pra dar um recado para as mães (e pais): criem crianças seguras de que você voltarão. Eu sempre me preocupei em dizer para o Pedro exatamente o que iria acontecer. Falava que ia ao trabalho, que ele ia ficar na escola e que o buscaria antes de ficar de noite. Mesmo quando ele “não entendia”. E mesmo quando não era sobre a escola. Pedro sempre soube onde ia, quando ia e por quanto tempo ficaria. Sem mentiras ou eufemismos. E, além disso, lembro que eu tinha a mania: eu nunca largava o Pedro dormindo em lugar nenhum. Se ele estivesse dormindo eu o acordava e explicava onde estava, nem que ele me ouvisse meio sonolento. Lembro de quando pequena acordar assustada quando meus pais me trocavam de lugar dormindo.


Aos poucos fui soltando ele e me soltando. Nunca, até hoje, foi tranquilo. Eu sofria, ficava insegura, mas pra ele sempre tentei me mostrar certa e com a voz firme. Mesmo que fosse a maior mentira. E vocês sabem o que eu tenho hoje?
Hoje eu tenho um menino de três anos seguro e independente. Tenho um menino de três anos que olha pra mim e avisa: “vou ficar na vó, na dinda, quero dormir no meu pai”. Na verdade isso até ficando até demais. Qualquer dia ele vai me dizer que vai ali na Europa e já volta. Eu tenho certeza que ele tem certeza que vou estar esperando ele voltar. Como ele tinha quando bebê.


Confiança é o nome disso mães. Deem a oportunidade de seus meninos e de suas meninas crescerem sabendo que por mais que vocês estejam longe, que estarão ali. Criem filhos e filhas que sintam que o amor de vocês é tão gigante que o afago de antes de dormir independe da presença física.

E, dentro de possivel, fiquem tranquilas. Eles vão ficar bem. E o braço? O braço ou (a perna) volta pro lugar e isso tudo vai ser melhor pra vocês dois.

Feliz dia daquelas que, quando escolhem encarar de frente, fazem a coisa mais difícil desse mundo: amar sem prender! Amar deixando espaço pra crescer aquele serzinho que lá no fundo queriam manter sempre ao lado das batidas do coração ❤️.

Feliz dia das mães!

Ah, parte do crédito desse processo todo é da minha psicóloga, tá? 🤣🤣🤣. Se tratem mães! Se tratem que a gente é tudo meio doida 🤣🤣🤣🤣

Link do texto que mencionei na publicação: https://revistacrescer.globo.com/blogs/Blog-da-Crescer/Paola-Lobo/noticia/2016/03/carta-de-um-bebe-para-mae-que-vai-voltar-ao-trabalho.html

#TBT A separação e a construção da segurança

O #tbt Coisas de Pedro dessa quinta, 14 de novembro, é de um texto que publiquei esse ano, no dia da mães.

A escrita especial do dia em homenagem às mães foi mais que um parabéns. A partir de um texto que apareceu nas minhas lembranças do facebook – “Carta de um bebê para a mãe que vai voltar ao trabalho” – eu escrevi sobre o sentimento de separação, difícil, tanto para as mães quanto para os bebês. Escrevi um pouco sobre meu processo, que começou em 2016, e dei algumas dicas de como podemos deixar nossos pequenos mais seguros diante dessa separação.

É gente, a publicação de amanhã é especial para as mães em fim de licença maternidade. E também para alguns pais que passam pelo fim da curta licença paternidade. Sim, alguns pais também sentem muito essa separação e eu fico muito feliz em conhecer dois ou três que sofreram um bocado para deixar seus recém nascidos e suas companheiras em casa para voltar ao trabalho.

Espero que vocês curtam, e muito! Esse tema, que anda do ladinho da questão da criação de uma criança segura, merece mais espaço por aqui. Em breve escrevo mais sobre ele.

Juntos nós temos a manha…e passamos quatro fases já!

Pedro vibra muito com o aniversário, esperar o dia, as funções da festa, é realmente um evento para ele. Reconheço que ele aprendeu isso comigo, que sempre fui a senhora empolgação no quesito comemorar aniversários, primeiro os meus e agora os meus e os dele. Em se tratando da minha data, sempre encarei a chegada do meu aniversário como um oportunidade de recomeçar, momento de agradecer o que tive oportunidade de viver e de registrar a esperança em relação ao que vem pela frente. O aniversário do Pedro é diferente, tem outro sentido pra mim. Cada ano que ele completa sinto como se fosse uma fase que chega ao fim para mim, é missão cumprida, game over temporário, meio parecido com videogame mesmo.   

De todos os aniversários do Pedro, certamente o mais simbólico foi o primeiro. Continuando a pensar em fases de videogame, as do meu jogo predileto, obviamente, todo esse simbolismo do primeiro ano de um bebê talvez seja porque a maternidade é como se fosse o jogo do Super Mário invertido. Na maioria das versões desse jogo, a ideia é passar as fases mais fáceis primeiro, sendo que a cada etapa cumprida o grau de dificuldade aumenta e o jogador vai acumulando mais recursos até chegar no “castelo”, o grande final.  Na maternidade não, a primeira fase é a pessoa ali, a vida bagunçada; uma super crise de identidade; dor; transformação; hormônios contribuindo para a instabilidade física e emocional; tudo é uma mistura de amor e medo… tudo isso e já tem que encarar o grande Bowser Koopa, no caso, o puerpério e o recém nascido, juntos! Logo, a maternidade começa pelo mais difícil e só depois, aos poucos, vamos ganhando recursos que permitem que tudo vá ficando um pouco mais tranquilo. Ou vamos pegando a manha do jogo, talvez. 

O primeiro aniversário do Pedro foi uma grande produção. Eu fiz questão de me envolver em tudo, escolhi cada detalhe como se estivesse, a cada decisão sobre como seria a festa, revivendo as escolhas mais difíceis que precisei tomar ao longo dos primeiros doze meses do meu bebê. Uma lista grande de convidados, e ainda assim não foi suficiente, porque o que eu queria, na verdade, era ter dinheiro para um mega evento, com efeitos pirotécnicos; um mega evento para mostrar ao mundo inteiro que eu consegui!  A festa do primeiro ano de um bebê é um grito da mãe, um grito de “Viram só?! Eu dei conta!”; “finalmente passou, e está tudo bem!” e, para as que têm sorte, como eu, além de todos esses, um grito de agradecimento aos que foram apoio nos momentos ruins.  

 Pensando agora em todos os aniversários do Pedro, assim, de pacote, vejo que eles contam – e muito – sobre a minha trajetória na maternidade. Se na primeira festa eu fiz questão de cuidar de cada detalhe, abrindo pouco espaço para as outras pessoas, porque sentia que aquela celebração era minha, o momento de curtir a passagem dos dois anos foi construído a quatro mãos. Desde a ideia do tema até a organização dos detalhes a minha irmã, e dinda do Pedro, esteve comigo. Foi como se aos poucos eu estivesse assumindo para mim que eu não precisava dar conta de tudo sozinha e que a minha família ia ser minha principal rede de apoio. A festa de três anos, então, contratei uma empresa e foi praticamente como se eu fosse convidada da festa, desapego total. A festa aconteceu exatamente do jeito que ele queria, tinha tudo que ele gostava e esse guri era a visão da felicidade, enfim, filho realizado e mãe descansada.      

Sábado tivemos a festa de quatro anos. A lista de convidados diminui drasticamente, porque estiveram com o Pedro e comigo somente as pessoas que estão com o Pedro e comigo, mesmo, sabe? Não só na festa, na vida. Aquela vontade de mostrar para todo mundo que eu consegui, com show de pirotecnia e tudo, essa já passou. Aliás, que todo mundo era esse? Nem sei mais, porque agora o que Pedro e eu temos é o nosso mundo, o que ficou e o que importa.

 Pedro completou quatro anos de muita saúde, sapequice e amor e eu quatro anos ocupando o cargo de mãe, aprendendo, todo dia, que, com o passar do tempo a maternidade vai ficando cada vez mais parecida com as fases do Super Mário: mudam os cenários e a trilha sonora, mas o sentido é sempre o mesmo: pra frente! Vamos descobrindo os segredos e os atalhos, onde ficam escondidas as vidas extras; sabemos mais ou menos de que lugares vem o perigo e o que usar para nossa defesa; identificamos com clareza quem pode nos ajudar com as dicas para passar cada fase e até assumir o nosso lugar no jogo por um instante, caso seja preciso. Aprendemos, sobretudo, que cada novo “castelo”, cada encontro com o Bowser Koopa é só mais um obstáculo que vamos passar juntos porque, juntos, nós temos a manha! 

A maratona do parto do Pedro: lembranças, emoções, gargalhadas e a praia que eu perdi

Nossa primeira foto

Sexta não é dia de publicação por aqui, mas essa sexta é especial. Quatro anos atrás, a essa hora, eu já estava no hospital para o nascimento do Pedro. Vou escrever essa frase de novo porque faltou algo muito importante: estava no hospital para o nascimento do Pedro querendo muito estar na praia! Sim! A previsão do parto era a partir da segunda quinzena de novembro então a mamãe aqui, depois de verificar a previsão do tempo, achou que ia exibir o corpo arredondado de trinta e sete semanas e quatro dias de gravidez na orla do litoral sul. 

Doce ilusão…aliás, doce ilusão e amargo trabalhão. Na noite anterior eu fui tomada pela empolgação, combinei com as amigas que íamos cedinho aproveitar a praia. Levei horas para encontrar um biquíni que desse conta de toda aquela protuberância que eram meus peitos e minhas partes baixas. Depois de achar a roupa de banho, parte de cima de uma cor e debaixo de outra, sem qualquer elemento que lembrasse que deveria ser um conjunto, eu fui para a próxima tarefa: por a depilação em dia. Uma grávida de 37 semanas, uma lâmina de depilação e um espelho gigante, ou gigantes, considerando que o adjetivo servia tanto à grávida quanto ao espelho. Eu poderia certamente ter vendido ingresso para esse momento e eu garanto que a atração seria enquadrada como comédia,  afinal,não deve existir coisa mais cômica do que uma grávida, assim, já na reta final, tentando enxergar as suas regiões íntimas. Enxergar e passar uma lâmina! Pois bem, depois de muito malabarismo, biquíni e depilação em dia, separei lanchinhos e bebidas e deixei tudo arrumado. Depois disso, fui dormir meu sono sagrado.

Eu chamava meu sono de sagrado porque ele era tão, mas tão difícil de ser cumprido que mais parecia uma penitência. Minha sagrada penitência era feita sentada na cama, por vezes com um suco ácido subindo pelo esôfago, com muitas idas ao banheiro para fazer xixi. Cada ida ao banheiro era muito pensamento positivo para não errar o cálculo de distância e espaço na hora de levantar, sob pena de cair de lado. Grávidas com barrigão se assemelham aos filhotes de tartaruga, se elas, ou os ditos filhotes, forem virados vão ficar muito tempo tentando se desvirar. Alerta importante: no caso de ser uma grávida, você presenciar isso e se divertir, vai direto para o inferno, acreditando nele ou não. Não importa se ao longo da vida você foi uma pessoa boa e fez doações para ONGs – ou para o próprio Projeto Tamar -,  se você rir de uma grávida que, no fim da gestação, não consegue fazer algo trivial, vai pagar essa conta mais adiante. Em tempo, naquele dia, se eu me virasse ninguém riria, porque eu morava sozinha. Ninguém riria e ninguém me ajudaria. Entenderam o foco no pensamento positivo? 

A gravidez é a perda gradativa da dignidade. Descobri isso desde que fui obrigada a abandonar minhas calcinhas fio dental e passei a vestir umas calcinha modelo pipa. Cheguei a essa conclusão nesse momento e repeti isso até o final, cada vez mais certa do que estava dizendo.  Se na gravidez eu perdi a dignidade de forma parcelada, no parto foi embora o pouco que me restava, e de uma vez só! O processo de dar fim de vez na minha dignidade começou às seis e meia da manhã do domingo, dia oito de novembro de dois mil e quinze, dia em que eu estava com tudo arrumado para passar o dia na praia. Achei que seria o décimo xixi da noite, fui levantar da cama e plasch! O barulho foi como se alguém tivesse jogado um balde cheio de água no chão. Pensei: nossa! Mas que tanto xixi! Passei a mão, cheirei e vi que estava enganada quanto à origem do tal líquido. Calma, mas indignada com a minha praia que tinha acabado de acabar, fui para o chuveiro, me lavei, sequei e dei um jeito de fazer com que uma toalha de banho fizesse o papel de uma fralda geriátrica. Limpei o meu quarto, vesti um vestido, já que outra coisa não tinha como, peguei as malas, coloquei no carro e comecei a ligar para todo mundo no domingo às sete da manhã. 

Obviamente ninguém atendeu as minhas ligações e eu me senti uma daquelas religiosas levando a palavra de Deus em pleno domingo de manhã cedo. O pai do Pedro estava em Porto Alegre, foi assistir a um show que queria muito e eu o encorajei porque, afinal, eu estava tão bem! Amigas, minha família, família dele, ninguém! Quando eu já estava chegando no hospital meu irmão retornou a ligação e foi avisado do evento. Veio me ajudar até porque eu imagino que iriam me perguntar quem era meu acompanhante, afinal, não é toda grávida que chega sozinha ao hospital com uma toalha de banho no meio das pernas.  Uma toalha no meio das pernas e um monte de sentimentos. Depois que me passaram para a maternidade eu seguia reclamando da praia, mas além disso eu pensava na fome. Eu tinha fome, ansiedade, nervosismo, medo, mais fome, tudo misturado.

A primeira etapa foi quando me passaram para uma sala de exames. Eu de um lado e meu irmão do outro de uma parede, conversávamos pelo celular. Eu estava desesperada com a ideia fixa que iam me deixar sem comer. Quando a médica do plantão chegou para me atender, a primeira coisa que eu perguntei era se podia comer! Depois disso, aliviada com a resposta positiva, fui para a maca fazer o tal exame de toque, segundo ela porque era preciso ter certeza que minha bolsa havia rompido. Plasch de novo! E dessa vez parecia que eram dois baldes. Fui encaminhada imediatamente para o quarto, isso depois  da médica explicar que o Pedro deveria nascer no prazo máximo vinte e quatro horas, caso contrário eu deveria passar por uma cesariana, pois ele não podia ficar sem líquido amniótico tanto tempo. E ali começou a minha espera, com muito pão bisnaguinha, que era minha ideia fixa desde que cheguei ao hospital.  

Hoje eu digo que jamais vou saber como é a dor de um parto normal. Não, não! Pedro não nasceu de cesariana! Eu fiz de tudo que tinha lido que ajudava a inciar o trabalho de parto, tamanho era o meu medo de fazer a cirurgia, medo por ele e por mim. Decidi sobre o meu parto no início da gestação, me informei e fiz toda a preparação, cheia de planos. Óbvio que não foi como eu planejei, mas também não foi cesariana. Pela falta das contrações ou qualquer indício que iriam começar, a cada exame de toque, que eram momentos horríveis, a médica colocava um comprimidinho no colo do meu útero. Ela me disse o nome, mas não lembro nem do nome nem da quantidade. O fato é que com os tais comprimidinhos e o dia todo que eu passei caminhando pelos corredores da maternidade, que a essa altura já estava sendo a sede do acampamento das famílias do Pedro, minhas contrações começaram mais ou menos às sete da noite. 

Sabe aquela história de contração, intervalo, respiração, sorrisos, conversinha;  contração, intervalo e por aí vai? E o indicado é que se monitore a duração dos intervalos e da própria contração. Todo mundo já viu ou ouviu isso em algum lugar. Não! Nada disso! Minhas contrações foram praticamente uma emendada na outra, sem tempo de respirar e muito menos de sorrisinhos. Pelo contrário. Me lembro de sentir uma dor tão intensa que parecia que eu estava numa daquelas rodas de tortura que se usava na Idade Média, que serviam para puxar a pessoa toda até separar todos os membros. Depois da dor intensa eu olhava para minha irmã e pro pai do Pedro e eles diziam, comendo um Burger King: trinta segundos. Eu não sabia o que era pior, sentir a dor ou ouvir que eram só trinta segundos, sendo que eu só iria pra sala do parto quando as contrações chegassem perto de um minuto de duração. E assim foi até mais de meia noite. Nesse momento minhas leituras foram fundamentais porque eu consegui descobrir algumas estratégias que ajudaram a aguentar a dor, fora dar socos na parede, o que foi muito útil .  

Depois de uma pequena mentirinha, acho que acrescentamos uns dez segundos nas últimas contrações, fomos para a sala de parto. Nessa etapa eu tinha disponível uma equipe formada por uma obstetra, acredito que umas quatro enfermeiras e a minha irmã, que foi quem eu escolhi para estar comigo. E foi a melhor escolha, porque nós compartilhamos concepções sobre um bom parto e quando eu já não aguentava mais ela entrava em cena, me lembrando do quanto eu era capaz e os motivos pelos quais eu estava vivendo aquilo.Sentar na bola para ajudar a dilatação, ducha de chuveiro morno, massagem nas costas e um grupo de mulheres maravilhosas. Uma equipe disposta a me ensinar a parir e a me tranquilizar dizendo que ninguém nasce sabendo e que é difícil mesmo. Difícil e constrangedor, muito constrangedor em vários momentos. O restinho de dignidade aquele, sabe? Já era! Enfim, não lembro do nome de nenhuma delas, até porque o Pedro nasceu em um Hospital Universitário, então, era quem estivesse no plantão. Se eu lembrasse, dedicaria esse texto a cada uma, por terem sido tão humanas e carinhosas numa hora em que eu estava frágil, assustada e exausta. 

Parece que frágil e parto são duas coisas que não combinam. Por mais frágil que eu estivesse, emocionalmente, além de fisicamente exausta,  a força que eu consegui fazer para parir não sei nem medir. Só lembro de ouvir a minha irmã dizer “vamos mana, eu toquei a cabecinha dele já”; depois disso eu enchi o peito de ar e soltei em forma de urro, com toda força que me restava – nota importante para vocês terem noção de intensidade: o pai do Pedro achou que eu tinha morrido nesse momento. Fiz isso e ouvi o que certamente foi o som mais emocionante da minha vida até ali: aquele resmungo, não foi um choro de fato, parecia mesmo o som de um incômodo. Então o momento mágico aconteceu quando o Pedro, colocado sobre a minha ainda enorme barriga, foi se arrastando, de forma preguiçosa e meio desengonçada, procurando pelo meu cheiro. Quando ele chegou perto, abocanhou o meio seio e fez uma cara de prazer que eu vou viver cinco vidas sem esquecer. Nesse momento a enfermeira ofereceu a tesoura e a minha irmã cortou o cordão. Eu nem lembro mais se e estava chorando de felicidade, de exaustão ou de suja mesmo, porque eu estava nojenta e desesperada por um banho. Levaram o meu bebê para medir, pesar, fazer os testes e parte da equipe ficou me atendendo, enquanto a outra parte examinava o Pedro para confirmar que estava tudo ótimo. Recebi os parabéns e lembro que agradeci muito, pois em tempo de tanta violência obstétrica, ter o parto que eu tive foi um privilégio. 

Todo ano eu lembro desse dia e é sempre com muito risada, no entanto é a primeira vez que escrevo sobre o meu parto. Depois desse momento a minha vida mudou completamente e não foi só por questões de logística. Viver um parto, uma experiência tão intensa e cheia de sentimentos diferentes, e por vezes até opostos, ver a vida acontecer de dentro do meu próprio corpo, mudou a minha forma de olhar para o mundo. Sabe aquela história da mãe achar que pode tudo? Super Mãe? O que é um problema, de fato; anos de terapia já me mostraram isso. Pois é, tenho sérias desconfianças que a Super Mãe do Pedro nasceu ali, naquele momento do meu parto, de tanto orgulho que eu tive de mim e dele.

 Hoje eu digo que se pudesse escolher eu passaria por tudo de novo, exatamente igualzinho, porque cada parte do evento que foi meu parto teve seu propósito. A minha dignidade eu levei um tempo para recuperar, mas não é da perda dela o que mais me lembro. O que não superei mesmo foi ter perdido a praia. 

A treta do aniversário

Publicado em “Coisas de Pedro” – 16/11/2019

Aprender a lidar com os sentimentos – papo do banho.

O dia do aniversário do Pedro foi um dia de mega confusão aqui em casa. Ele ganhou um brinquedo muito esperado da vovó e do vovô e acabou brigando feio com a Nena. Atenção: eu estou suavizando muito. Foi muito mais que uma briga. Tenso mesmo (tenso a ponto de ser pauta única da minha terapia essa semana).

Sei que alguns rompantes são normais pra fase em que estão entrando Pedro e Lorena, mas muito anormal para o comportamento dele. Eu não soube lidar. Mesmo.

Hoje, no banho, pedi pra que ele me contasse como foi o dia. Me contou da escola e que o Dindo, a Dinda e a Nena foram buscá-lo.

– A gente andou de bicicleta mamãe, lá onde tem a água (Rincão da Cebola – riograndinos entenderão). E eu pedalei lá longe.
– É meu filho? E tu gostou?
– Sim. E depois a gente veio pra nossa casinha e eu brinquei de tudo com a Nena.
– De tudo?
– Sim mamãe. Eu emprestei minha Patrulha pra ela (Patrulha = o brinquedo da discórdia).
– E sem brigar filho?
– Sim mãe. Eu dividi e não briguei.
– Nossa filho! Nem sabes como a mãe ficou feliz agora. Aquele dia a mãe se chateou tanto com aquela briga e aqueles gritos. A mãe não gosta de brigar contigo, mas também não gosta que tu faça aquelas coisas com ninguém.

…PAUSA DO PENSAMENTO…

– Mas mãe. Aquele dia eu queria ver tudo.
– Como assim filho?
– Eu queria ver. Era novinho.
– Ah, agora a mãe te entendeu. Tu queria ficar um pouco só pra ti por que era novinho?
– Sim mãe.
– Pedro, isso não tem problema. A Nena ia entender. E eu também ia. Se tu tivesse falado. Mas tu só gritou e chorou.
– Aí você não entende mãe? Por que eu não sou mais bebê? E nem a Nena entende?
– É filho. Quando tu era bebê tu não sabia dizer e chorava. Mas agora tu sabe. Quando a gente sente e quer as coisas precisa aprender a dizer. Se não como que as pessoas vão saber?

…PAUSA DO PENSAMENTO…

– Eu entendo você mãe.
– Sim filho. Por que a mãe consegue te dizer as coisas. Mas eu sei que não é fácil. Que tal um combinado?
– Qual mãe?
– Da próxima vez a mamãe tenta te ajudar a dizer. Pra tu aprender.
– Uma ótima ideia mãe.

…. PAUSA DO PENSAMENTO…

– E se eu não conseguir e só chorar?
– A mãe tenta ter calma e te abraçar até passar.
– Isso pode ser uma ótima ideia mãe!

#TBT A treta do aniversário

O #tbt Coisas de Pedro de amanhã é temático. Já que estamos na semana em que o Pedro completa quatro anos eu vou relembrar um texto que saiu dias depois do aniversário de três anos dele.

Quem segue a página do Pedro sabe que seguido acontecem umas conversas bem profundas na hora do banho. Essa postagem que eu vou compartilhar amanhã foi uma conversa linda que Pedro e eu tivemos embaixo do chuveiro, ainda na fase de elaboração da baita treta que vivemos no dia do aniversário dele.

De todos os momentos que eu já vivi como mãe esse dia da treta do aniversário foi o que eu me senti mais fracassada. O Pedro se comportou de um jeito completamente novo, transformado mesmo, e eu não soube o que fazer, fiz tudo errado, perdi o controle…foi o caos. Lembro de ter ido para a cabeleireira aos prantos, tamanha a sensação de incompetência que eu senti. Cheguei a ter vontade de não ir à festa.

Leiam a o #tbt de amanhã porque vai estar incrível. Se a treta foi um dos momentos piores da maternidade pra mim, a conversa no chuveiro, sobre a tal treta, foi um dos mais bonitos. Vai ser lindo recordar e dividir isso com vocês!